A cadeia de fornecedores pode ser muito mais complexa do que imaginamos, pense em quão complexa deve ser uma linha de fornecimento para itens caros como carros, computadores ou celulares, centenas ou milhares de empresas em algum momento forneceram um material, um item ou um serviço na construção desse bem. Mas mesmo itens menores do nosso dia a dia também possuem essa complexidade.
Pense em algo que quase todo mundo tenha em casa, como uma camiseta de algodão, um item básico, feito de apenas um material, um item essencial e coringa no guarda-roupa de muita gente. É bem comum que a gente pense apenas na fábrica que confeccionou a peça ou então na loja onde compramos, mas existe uma cadeia muito mais complexa por trás de um simples item no seu armário, essa rede é chamada de cadeia de fornecedores e é muito mais complexa do que parece.
Vamos imaginar uma camiseta vendida por R$ 50. Antes mesmo de chegar à loja, ela passou por dezenas de empresas. A confecção comprou o tecido de um fornecedor, a linha de outro, as etiquetas de um terceiro, as embalagens de outro, além de contratar serviços como costura, tingimento, estamparia, lavanderia e transporte. Esses são apenas os fornecedores diretos.
Cada um desses fornecedores ou prestadores também possui uma cadeia de fornecimento própria, a fábrica de tecido vai comprar o algodão, tecidos, corantes, químicos, energia, máquinas, peças de reposição. O produtor de algodão irá adquirir sementes, defensivos, fertilizantes, máquinas agrícolas, combustível e mão de obra. Para cada etapa ou insumo que levantarmos, teremos uma dezena de fornecedores por trás, nesse caso uma simples camiseta de algodão pode ser o resultado de uma complexa cadeia de centenas de fornecedores.
Em muitos setores, estima-se que entre 60% e 80% do custo final de um produto esteja relacionado à cadeia de fornecedores. Em uma camiseta vendida por R$ 50, por exemplo, aproximadamente R$ 30 a R$ 40 podem estar associados às matérias-primas, componentes, serviços e logística fornecidos por outras empresas. Isso demonstra que gerenciar bem essa cadeia é essencial para controlar custos, garantir qualidade e reduzir riscos.
O custo da cadeia de fornecedores não se resume apenas aos custos associados com a compra de materiais e serviços, ainda existem os custos intangíveis, como os riscos à reputação da empresa, custos de conformidade, exigências legais e perdas financeiras decorrentes de problemas na cadeia.
Um exemplo bem conhecido sobre o tema aconteceu há alguns anos com vinícolas da serra gaúcha, onde vários trabalhadores foram resgatados em condições análogas à escravidão. A repercussão, o custo intangível de perda de reputação foi enorme entre as marcas envolvidas e para os consumidores é indiferente se o problema ocorreu com um fornecedor direto ou terceiro, a responsabilidade da cadeia de fornecimento é da empresa que estampa a sua marca ou rótulo.
Essa preocupação também está sendo fortalecida pelas legislações internacionais. A União Europeia, por exemplo, vem adotando normas que exigem maior transparência e rastreabilidade das cadeias produtivas. Produtos como couro, carne, soja, café, cacau, madeira e outros não podem estar associados ao desmatamento ilegal para terem acesso ao mercado europeu. Além disso, cresce a exigência para que empresas demonstrem que seus fornecedores respeitam os direitos humanos, não utilizam trabalho infantil ou trabalho análogo ao escravo e cumprem requisitos ambientais ao longo de toda a cadeia de produção.
O custo da cadeia de fornecedores vai muito além do seu custo final ou percentual sobre o preço de venda, não é apenas a responsabilidade da área de compras, mas deve ser uma preocupação transversal em toda a operação. É necessários gerenciar os riscos, estar atento às regulamentações, reduzir impactos ambientais, fortalecer o papel social das empresas. Em um mundo cada vez mais conectado e regulado, conhecer profundamente a cadeia de fornecimento deixou de ser um diferencial e passou a ser uma necessidade para a competitividade e a sustentabilidade dos negócios.
Referências
O (seu) vinho com trabalho escravo e a responsabilidade pelos fornecedores | Reset
Grandes marcas compraram R$ 48 bi de fornecedores com trabalho escravo