A indústria da moda se reinventa de tempos em tempos. Aquilo que era tendência anos atrás hoje talvez nem venderia, e assim o mundo fashion se reinventa, como uma forma de expressar um pouco da própria personalidade, falar sobre os seus gostos e mostrar a sua cultura. Mas se por um lado a moda fala sobre cultura, por outro lado ela se tornou globalizada e símbolo das contradições do consumo contemporâneo.
A criatividade e inclusão de várias tendências precisa equilibrar a produção com pressões ambientais e sociais. Todos os anos, o mundo fabrica cerca de 100 bilhões de peças, volume que dobrou desde o começo dos anos 2000 e que geralmente tem vida curta antes de virar resíduo. No Brasil, a indústria têxtil produz entre 5 e 6 bilhões de peças por ano e emprega centenas de milhares de pessoas diretamente, o que explica dimensiona a sua relevância econômica e desafios associados.
É comum lermos que a indústria da moda é a segunda mais poluente do mundo, mas não um consenso científico por trás dessa afirmação ou mesmo um ranking exato apontando os principais dados comparados, entretanto há um consenso de que é uma das indústrias mais impactantes no meio ambiente. Dados da ONU apontam que até 10% das emissões globais de carbono podem vir do segmento da moda, além da geração anual de 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis, somado ao grande consumo de água e produtos químicos ao longo da cadeia produtiva. Uma única camiseta de algodão consome cerca de 2.700 litros de água na sua produção.
Outro ponto que chama a atenção para o impacto dessa indústria é a alta produção de peças com baixo custo e troca de coleções em pouco tempo, buscando o sentimento de escassez no consumidor e necessidade de comprar mais itens para acompanhar a tendência, a chamada moda fast fashion, que multiplicou coleções, encurtou ciclos e barateou preços. O consumo digital, com plataformas on-line e entrega acelerada, impulsionou volumes e devoluções, esticando a logística e a geração de resíduos.
Diante desse quadro, consumidores vêm alterando gradualmente suas escolhas, buscam peças de maior qualidade e durabilidade, valorizam reparo, revenda, pedem transparência sobre origem da fibra, pegada de carbono, e certificações de práticas ambientais e trabalhistas. É nesse contexto que a União Europeia deu um passo muito importante, proibiu a destruição de roupas, calçados e acessórios não vendidos por grandes empresas a partir de 19 de julho de 2026.
A regra integra o Regulamento de Ecodesign para Produtos Sustentáveis (ESPR) e vem acompanhada da obrigação de relatórios padronizados sobre volumes descartados. Estimativas indicam que antes da lei, cerca de 4% a 9% dos têxteis não vendidos na Europa fossem destruídos todos os anos, gerando mais de 5,6 milhões de toneladas de CO₂ e contribuindo com as mudanças climáticas. A partir de agora, o caminho preferencial passa por revenda, doação, remanufatura, reutilização e reciclagem.
A decisão europeia responde a uma pressão social por responsabilidade e cria um padrão regulatório que tende a se espalhar para fornecedores globais, incluindo os que atuam no Brasil. À medida que marcas que vendem no mercado europeu tiverem de comprovar que não destroem excedentes e que gerem melhor estoques e devoluções, cadeias exportadoras precisarão se adaptar, impulsionando investimentos em logística reversa, triagem e parcerias de reuso e reciclagem.
No Brasil o desafio é similar, embora não haja nenhuma legislação direcionada para o setor da moda. O país conta com a Política Nacional de Resíduos Sólidos e iniciativas voluntárias no varejo, mas não possui ainda uma regra específica que proíba a destruição de excedentes têxteis ou que estabeleça metas obrigatórias de circularidade para o setor. Parte disso se explica por desafios estruturais, como a informalidade, dispersão da cadeia e custo de logística reversa.
A melhor saída para o consumidor brasileiro nesse caso é comprar menos e melhor, priorizar qualidade e reparo para estender a vida útil da peça. Também é possível realizar a busca por marcas com certificações e selos que reduzam o impacto na origem e por marcas com logística reversa ativa.
Referências
O Panorama Setorial da Indústria Têxtil Brasileira IEMI
Circular Fashion | Circular Economy for the Fashion Industry | Ellen MacArthur Foundation
Produção e empregos da indústria têxtil e de confecção crescem no 1S25 – Portal e TV Fator Brasil