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Como os ciclos de gelo na Antártica influenciam na produtividade de ecossistemas distantes

Pode parecer um pouco estranho de pensar, mas você já se questionou como o clima e a produtividade global dos ecossistemas são controlados? Existem vários fatores que influenciam na produtividade de ecossistemas e regiões como a localidade, clima, hidrografia, mas um dos fatores mais importantes é um que ocorre a milhares de quilômetros de distância: os ciclos de gelo e degelo do continente antártico.

A Antártica é um continente coberto por uma espessa camada de gelo que molda o clima e a circulação oceânica ao seu redor. Desde o século XX existe um sistema internacional que protege o continente para fins científicos, proibindo a exploração mineral e regulando atividades por meio do Tratado da Antártica e seus protocolos ambientais. 

Quando a cobertura de gelo da Antártica cresce ou diminui em escalas que vão de milhares a dezenas de milhares de anos, muda a configuração da circulação oceânica e atmosférica. O avanço ou recuo das camadas de gelo altera a salinidade e a temperatura da água ao redor do continente, o que por sua vez modifica correntes de fundo e de superfície que transportam nutrientes e calor para latitudes mais baixas. Essas mudanças físicas podem aumentar ou reduzir a fornecimento de nutrientes a regiões subtropicais, controlando a produtividade do fitoplâncton, a base da cadeia alimentar marinha. Essas conexões podem repercutir até em regiões subtropicais e na costa brasileira, exigindo monitoramento integrado e políticas de gestão costeira. 

Tudo na natureza gira em torno da produção e conservação de energia, pois os organismos capturam, transformam e transferem energia, e os ecossistemas organizam-se em torno desses fluxos. Na espécie humana, o salto da agricultura representou um controle deliberado sobre fontes primárias de energia, o que permitiu sociedades mais complexas e densas. Pense na espécie humana ao longo de milhares de anos, a maior preocupação era a obtenção de energia (alimentos) e formas de preservá-la (descanso e proteção)

Do mesmo modo, a produtividade dos ecossistemas depende de como energia e matéria são disponibilizadas: ecossistemas frios, especialmente marinhos em altas latitudes, costumam ser altamente produtivo, pois possuem mais oxigênio dissolvido e geram mais alimentos em seus ciclos produtivos. Mas a pergunta que fica é como esses ciclos de degelo influenciam na produtividade global dos ecossistemas? 

Os ciclos de crescimento e retração do gelo alteram a salinidade e a temperatura das águas polares, o que influencia a formação de correntes profundas e a ventilação do oceano global, essas mudanças na circulação distribuem nutrientes e calor, podendo aumentar ou reduzir o transporte de nutrientes para oceanos e biomas a longas distâncias. 

A dinâmica de formação e derretimento do gelo controla a mistura de nutrientes na coluna d’água, reduzindo e aumentando a disponibilidade de nutrientes na superfície. Uma maior formação de gelo e resfriamento podem favorecer a produção biológica em áreas costeiras e oceânicas distantes. Essas variações físicas têm sido registradas em camadas e que mostram correspondência entre fases antárticas e produtividade oceânica. 

Para o Brasil, alterações na circulação de correntes marinhas com águas frias e ricas em fitoplâncton do Atlântico Sul e nos ventos costeiros podem influenciar na produtividade pesqueira com impactos socioeconômicos relevantes para comunidades costeiras do Sul e Sudeste.

Os ciclos de gelo antárticos são um componente representativo do sistema climático e oceânico global, pois as suas variações possuem consequências na disponibilidade de nutrientes e na produtividade biológica em regiões distantes, inclusive no Sul e Sudeste brasileiro, o que reforça a necessidade de observação integrada como satélites, boias e mais estudos na conexão e conservação pesqueira e costeira. 

Referências:

Ancient Antarctic ice cycles impacted ocean productivity thousands of miles away – UW–Madison News

Earth’s 40,000-year tilt cycle links Antarctic ice growth to subtropical productivity

The USAP Portal: Science and Support in Antarctica – The Antarctic Treaty