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As empresas estão preparadas para trabalhar em um mundo 2°C mais quente?

Uma pergunta que parecia tão distante já passa a ser uma realidade em curto e médio prazo para a sociedade e principalmente para as empresas. Um mundo dois graus mais quentes é o limite de temperatura para o fim do século XXI, conforme o Acordo Climático de Paris.

Entretanto, esse cenário estará batendo à nossa porta com muito mais antecedência do que o planejado. Em 2024, a temperatura média global ficou 1,6°C acima do período pré-industrial, o maior valor já registrado, em 2025, ficou em 1,47°C. Quando analisamos a média de 2023 a 2025, pela primeira vez, o período ficou acima de 1,5°C e para 2027 as projeções apontam 1,76°C com o avanço do El Niño.

E o que isso tem a ver com as empresas? Praticamente tudo, um mundo mais quente não significa apenas temperaturas mais altas, significa mudanças na disponibilidade de água, maior frequência ou intensidade de eventos extremos, alterações na produção agrícola, impactos na infraestrutura, interrupções logísticas, aumento de custos e maior pressão sobre trabalhadores e comunidades.

A cadeia de fornecimento talvez seja um dos primeiros lugares onde esses impactos aparecem, pois uma seca prolongada pode reduzir a disponibilidade de determinadas matérias-primas, uma enchente pode interromper a produção de um fornecedor, uma onda de calor pode reduzir a produtividade agrícola. 

Uma empresa pode estar muito bem estruturada e sua operação funcionando sem problemas, mas pode sofrer problemas decorrentes de eventos extremos localizados a centenas ou milhares de quilômetros distantes.

O nosso país é sensivelmente refém das mudanças no clima, principalmente pela sua produção de energia, que ainda é majoritariamente hidrelétrica e depende dos regimes de chuvas, períodos de seca prolongados diminuem o nível dos reservatórios e acendem o alerta para o acionamento de fontes mais caras de energia.

A logística também pode ser severamente afetada, pois o transporte fluvial é essencial para o transporte de insumos no interior dos estados. Rios baixos significam rotas interrompidas, embarcações com restrições de carga e os custos de transporte podem aumentar. Mas não é apenas o transporte por rios que podem ser afetados, estradas, pontes, ferrovias, portos e acessos também estão expostos aos eventos climáticos extremos, como vimos no Rio Grande do Sul em 2024, onde o principal aeroporto do estado ficou meses fechado em decorrência das enchentes.

Os combustíveis também podem sofrer impactos. No Brasil, uma parcela importante dos combustíveis utilizados no transporte possui origem vegetal, como o etanol e o biodiesel, além da gasolina comercializada no país conter etanol. A produção dessas matérias-primas depende diretamente de condições climáticas adequadas, se o clima comprometer a produtividade agrícola, pode haver menor disponibilidade, aumento de preços e maior pressão sobre os custos de transporte.

É exatamente por isso que a análise de riscos climáticos precisa deixar de ser uma avaliação isolada da área de sustentabilidade e passar a fazer parte da gestão estratégica do negócio das empresas. É necessário que as empresas analisem se os clientes podem ser afetados, se fornecedores estão expostos, quais matérias-primas dependem de condições climáticas específicas, quais unidades estão expostas a secas, enchentes ou ondas de calor e até mesmo como os funcionários são afetados. Essas são perguntas de gestão de riscos que devem ser feitas ao considerar um mundo mais quente e o seu impacto nos negócios.

As empresas que começarem a responder essas perguntas agora terão mais condições de antecipar problemas, proteger suas operações e tomar decisões de investimento com maior segurança. Um mundo 2 graus mais quentes não é apenas um problema para um futuro distante, mas muito breve.

Referências

https://climate.copernicus.eu/copernicus-2025-was-third-hottest-year-record
https://dashboard.epe.gov.br/apps/livro-ben/livro/pt/capitulo_1.html
https://exame.com/esg/o-proximo-el-nino-sera-um-teste-para-a-estrategia-das-empresas
https://exame.com/bussola/35-dos-ativos-fisicos-de-grandes-empresas-estao-expostos-a-desastres-climaticos