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Quais materiais você acha que são reciclados, mas não são?

Um dos grandes dilemas ambientais da humanidade nas últimas décadas é a grande geração de resíduos, seu baixo índice de reciclagem e descarte inadequado no meio ambiente. É muito fácil encontrarmos reportagens e artigos que tratem do tema, seja de problemas pontuais de coleta seletiva até grandes ilhas de plásticos espalhadas pelos oceanos.

A reciclagem começa muito antes de um material chegar à indústria recicladora. Ela depende de escolhas de consumo, separação correta, coleta seletiva, logística reversa, infraestrutura e, principalmente, mercado para absorver o material reciclado. E esse é um grande desafio que enfrentamos no Brasil, existe uma distância grande entre aquilo que descartamos e aquilo que efetivamente retorna ao ciclo produtivo.

O nosso país é um dos países que mais produz resíduos no mundo, somente em 2024, gerou aproximadamente 81,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos. Isso representa mais de 1 kg por habitante ao dia. Embora 93,7% desse volume tenha sido coletado, a reciclagem dos resíduos secos alcançou aproximadamente 8,7% do total gerado. Os números mostram que coletar o lixo não significa necessariamente reciclá-lo e é aqui o maior gargalo da gestão de resíduos em nossas cidades e estados.

A gestão de resíduos é uma questão ambiental, econômica e social. Quando materiais que poderiam retornar à indústria são descartados, perdemos matérias-primas, energia e oportunidades de geração de renda. Também aumentamos a pressão sobre aterros sanitários e ampliamos os impactos associados à extração de recursos naturais. 

Um dos desafios é ampliar a logística reversa, que permite devolver determinados produtos e embalagens ao setor empresarial para reaproveitamento ou destinação adequada. Outro é conscientizar a população sem transferir toda a responsabilidade para o consumidor. Não basta orientar as pessoas a separar o lixo se a coleta seletiva não chega ao bairro ou se não existe uma cadeia capaz de recuperar aquele material.

Empresas e governos devem ampliar a infraestrutura de triagem e reciclagem, enquanto a indústria precisa aumentar a utilização de matéria-prima reciclada. Sem demanda e valor comercial para esses materiais, a reciclagem perde viabilidade econômica. A economia circular exige que o resíduo seja tratado como recurso, e não apenas como algo que precisa desaparecer da nossa vista.

E aqui que começa uma grande dúvida com o público, muito materiais parecem recicláveis, mas não são. Esses materiais não são reciclados porque sua composição dificulta a separação e o processamento, ou porque faltam infraestrutura, coleta específica e mercado para viabilizar sua reciclagem. Alguns dos principais exemplos do dia a dia são:

Embalagens de salgadinhos e café – Apesar de serem de plástico ou parecerem metálicas, muitas são feitas de várias camadas de materiais diferentes, o que dificulta a separação e a reciclagem convencional.

Papel-toalha e guardanapos sujos – Embora sejam feitos de papel, as fibras podem estar contaminadas com gordura, restos de alimentos ou outras substâncias, tornando esses itens inadequados para a reciclagem comum.

Copos descartáveis – Muitos são de plástico e outros são de papel com revestimentos. A possibilidade de reciclagem depende da composição, da estrutura local de coleta e da existência de empresas que processem esse material.

Caixas de pizza engorduradas – A caixa de papelão limpa pode ser reciclada, mas a parte impregnada de gordura e restos de alimentos pode comprometer o reaproveitamento das fibras. O ideal é separar as partes limpas das sujas.

Cápsulas de café – Algumas são feitas de plástico, outras de alumínio e há modelos com diferentes componentes. Mesmo quando o material é reciclável tecnicamente, a presença de resíduos de café e a necessidade de separar os componentes dificultam o processo. Muitas dependem de programas específicos de coleta e devolução, não sendo necessariamente aceitas na coleta seletiva convencional.

Tubos de pasta de dente – Algumas embalagens são feitas de diferentes camadas de plástico e alumínio, o que dificulta a separação dos componentes. Mesmo que pareçam embalagens plásticas comuns, nem sempre são aceitas na coleta seletiva convencional.

A maioria desses resíduos apresenta o símbolo de reciclável em sua embalagem, mas a reciclagem depende da composição do produto e da infraestrutura disponível em cada município. Mesmo nesses casos, devem ser descartados no lixo seco, embora não sejam reciclados na maioria das vezes.

A melhor saída para aumentarmos os índices de reciclagem é reduzir o consumo desnecessário, reutilizar produtos, procurar opções com materiais mais fáceis de serem reciclados e cobrar de empresas e poder público mais investimentos no tema.

Referências

https://www.tetrapak.com/pt-br/campaigns/mitos-e-verdades/reciclabilidade-cadeia-de-reciclagem
https://datacatalog.worldbank.org/search/dataset/0039597/what-a-waste-global-database
https://bbc.com.im/portuguese/articles/cly3l0835dgo