É muito comum escutarmos os relatos de pescadores contando suas histórias e aventuras, onde se destaca o tamanho dos peixes pescados no passado, a diversidade de espécies e como era fácil achar lugares bons de pescar, a chamada “história de pescador” que é muito conhecida em nosso país. Mas em tudo é história de pescador, nossos peixes estão desaparecendo, sofrendo mais pressão por recursos e muitas vezes nem conseguem migrar para se reproduzir.
A diversidade de peixes no planeta é impressionante, são conhecidas 34.200 espécies, representando mais da metade de todos os vertebrados vivos. Desse total, 41% vivem em água doce, 58% em ambientes marinhos e cerca de 1% transitam entre os dois habitats ao longo da vida. O Brasil se destaca como um dos países mais ricos em numero de espécies, abrigando 2.587 espécies de água doce e 1.298 marinhas, com destaque para a bacia amazônica, considerada a região de maior diversidade de peixes de água doce do mundo. Essa riqueza natural não apenas sustenta ecossistemas complexos, mas também é fundamental para a alimentação e cultura de milhões de brasileiros.
Nos últimos cinquenta anos, entretanto, as populações de peixes migratórios de água doce sofreram uma redução média de 81% em todo o mundo, segundo relatórios da World Fish Migration Foundation e da Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS) da ONU. Esse declínio é considerado um dos mais severos entre grupos de vertebrados monitorados. Na América Latina, o cenário é ainda mais crítico, com perdas de até 91%, enquanto na Europa o índice chega a 75%.
Os peixes migratórios desempenham papel essencial nos ecossistemas aquáticos e na segurança alimentar de comunidades humanas. Espécies como o salmão, a dourada e diversas variedades de bagres dependem de rios livres para completar seus ciclos de vida, migrando entre habitats para reprodução e alimentação. Além de sustentarem cadeias tróficas, esses peixes são fonte de proteína para milhões de pessoas, especialmente em regiões vulneráveis da Ásia, África e América Latina.
As causas do declínio são múltiplas e interligadas. A fragmentação dos rios por represas e barragens impede que os peixes alcancem áreas de desova, transformando rotas migratórias ancestrais em becos sem saída. Estima-se que 93% dos rios do planeta estejam hoje fragmentados por estruturas humanas. A poluição das águas, o escoamento agrícola, a conversão de áreas úmidas em lavouras e a pesca predatória intensificam ainda mais a crise. Somam-se a isso os efeitos das mudanças climáticas, que alteram regimes de chuvas e temperaturas, impactando diretamente os ciclos reprodutivos.
O impacto desse colapso populacional é profundo. Ecossistemas inteiros perdem equilíbrio, comunidades ribeirinhas enxergam sua subsistência ameaçada e a biodiversidade global sofre uma perda irreversível. Segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), um quarto das espécies de peixes de água doce já está em risco de extinção.
Para conter esse quadro, medidas urgentes são necessárias, como a remoção de barreiras fluviais, criação de passagem de peixes nas represas, fiscalização contra a pesca ilegal e restauração de habitas. Apenas com essas medidas as espécies de peixes de água doce conseguiram recuperar as populações perdidas ao longo de décadas.
Referências:
Epic river migrations of fish rapidly collapsing, UN report finds | Fish | The Guardian
https://www.worldwildlife.org/publications/global-assessment-migratory-freshwater-fi shes/